A força que corria por minhas veias era algo que eu nunca havia experimentado.
Eu pude sentir seus ossos esmigalhando na palma das minhas mãos.
Sua traqueia produzia um som quase inaudível, como se implorasse por misericórdia.
O sangue escorrendo pelo canto de seus doces lábios, se misturavam ao seu cabelo negro, num vermelho vivo.
Nos teus olhos eu pude ver, junto com o medo, o pavor e a suplica pela vida, tudo aquilo que vivemos.
Sua pele já mais alva do que sempre fora.
Eu podia sentir dentre meus dedos as batidas fortes e rápidas do seu coração, dançando a canção da morte, lutando por vida, por esperança.
Seus pulmões brigando, lutando para sugar o máximo de ar que escapava por meus dedos rígidos em seu pescoço já irreconhecível.
Como é doce.
Sua beleza é tão vivida quando pintada de vermelho.
Seus olhos castanho me faz pensar em caminhos que nunca segui por medo, só porque quis me proteger.
Se eu não podia acabar com o mal em mim, então que o mal acabe com você.
Pela primeira vez eu pude odiar alguém, a ponto de sujar minhas mãos com o teu sangue. E isso me fez sorrir.
Eu já não tremia mais, já não doía mais. Como se toda minha dor, se esvaísse com o seu sangue que escorria em meus braços, na altura do cotovelo, e lá pingava no chão, como uma goteira em dia de tempestade.
As folhas do outono iam aos poucos se pintando de vermelho, como um pintor desastrado e seu pincel encharcado. E um cenário macabro ia se construindo, a medida em que a vida lentamente ia abandonando seu corpo. Sem piedade, cada segundo seus olhos se apagavam mais. Os mesmo olhos brilhantes que um dia me fizeram vacilar, se tornaram o palco daquele terror tão belo.
Pude sentir o exato momento em que a vida abandonara seu corpo, em minhas mãos. Como se não fosse mais importante. Como se já tivesse terminado por ali.
E foi ai que eu percebi, que agora você pode entender o que eu senti todo esse tempo.
Como seus olhos já não brilhavam mais, pra mim não interessava.
Você pode imaginar?
Ela está morta.






