
Disclaimer: Alguns dos personagens apresentados nesta história pertecem ao autor André Vianco, a escrita não tem fundos financeiros.
Eu sabia o quão arriscado seria, eu poderia não sobreviver. E, para meu azar, Gentil também sabia, estava explícito nos seus olhos azuis. Aqueles mesmos olhos que me hipnotizaram meses atrás. Era fácil ver como ele estava incomodado com aquela situação. Se fosse um vampiro qualquer seria fácil transformar um simples ser humano em uma criatura nefasta, mas para Miguel que, por mais que fosse um demônio tinha um grande coração, era a coisa mais difícil. E, para piorar, não era um ser humano qualquer, era eu. A pessoa a quem ele entregara todo seu amor, a pessoa à qual ele dedicaria todos os dias de sua eternidade. Eu sabia também que para ficar com Miguel teria que abrir mão de muitas coisas mas, por ele, eu estava disposta a tudo.
- Tu tens certeza do que queres minha amada? – Miguel tentara, inutilmente, de todas as maneiras, me fazer mudar de idéia.
- Por você eu estou disposta a tudo, pagarei qualquer preço para ficar do seu lado, meu amor. – Eu estava realmente certa do que queria e nada me faria mudar.
O quarto abandonado daquele hotel poderia me assustar facilmente se eu estivesse sozinha, mas eu estava com Gentil. Quando eu estava ao seu lado todos os meus medos sumiam.
Eu sabia que Miguel estava feliz porque iríamos ficar juntos eternamente, mas para ele era difícil pensar na possibilidade de meu coração não mais bater.
Pousei minhas mãos levemente em seu rosto pálido, pressionei meus lábios nos dele. Queria, de alguma maneira, passar toda a confiança que eu tinha nele, mostrar que eu sabia que era a coisa certa a se fazer.
No começo ele permaneceu imóvel, mas logo em seguida me abraçou com força, como se estivesse com medo de me perder.
- E se tu não sobreviveres mon amour? - Ele se mostrou mais apreensivo do que o necessário.
- Eu não vou te abandonar Miguel, jamais vou te deixar. – Eu não tinha realmente certeza se iria conseguir resistir ao veneno, mas iria tentar, lutar com todas as minhas forças. Eu precisava.
Antes mesmo que ele pudesse dizer algo que me fizesse desistir, peguei o punhal e pousei em suas mãos lentamente. Ele me olhou com aqueles olhos tão azuis -ele definitivamente era um anjo para mim- e, por mais apreensivo que ele estivesse, seus olhos me transmitiam paz, me traziam segurança.
Sem mais demoras ele passou o punhal por seu pulso, abrindo um grande corte que, no mesmo instante, começou a verter muito sangue. Miguel me olhava como se fosse me segurar e me impedir a qualquer instante.
Segurei seu pulso com firmeza, para que não tivesse risco de que ele escapasse. Mesmo sabendo que não adiantaria nada, pois a força dele era extremamente maior do que a minha; se ele realmente mudasse de idéia e quisesse me impedir, iria se libertar com muita facilidade.
Encostei meus lábios no corte, comecei a sugar lentamente o sangue que se esvaia. Tinha um gosto amargo, era frio; minha primeira reação foi ter repulsa daquilo mas, se eu realmente queria a vida eterna, era preciso. Comecei então a sugar o sangue do meu amado com mais intensidade, não conseguia em nenhum momento desvencilhar meu olhar dos olhos dele. Eu tinha medo de machucá-lo, mesmo sabendo que era impossível; pelo menos para uma humana frágil como eu, isso era praticamente impossível.
Comecei a me sentir tonta. Um gosto amargo subiu pela minha garganta, estava sentindo que iria colocar todo o sangue que eu havia ingerido para fora.
- Querida, estás sentindo algo? – Percebi grande preocupação em seu tom de voz. O sotaque lusitano não abandonara Miguel.
Sim, eu estava sentindo tudo. Sentindo frio e calor ao mesmo tempo, minha cabeça foi ficando pesada, eu já havia perdido a noção do tempo, já havia perdido toda noção de espaço e lugar. Então tudo ficou escuro, eu não ouvia mais nada.
Quando abri os olhos não conseguia identificar nada ao meu redor, meus olhos estavam embaçados, minha cabeça latejava e eu sentia uma grande queimação vinda do peito. Minha garganta ardia muito, parecia que eu havia engolido fogo puro. Eu podia sentir meu coração lutando para bater dentro do peito, ele batia lento e descompassado.
- Estás me ouvindo mon cherry? – Miguel percebera que eu estava recuperando os sentidos, sabia que precisava me motivar a “viver”.
Eu queria, mas não conseguia pronunciar nada, minha garganta queimava demais e eu sentia que se fizesse qualquer esforço meu coração iria parar de vez. Não me lembrava de praticamente nada de antes de apagar. Só de uma coisa fria e amarga descendo por minha garganta e dos olhos azuis de Miguel, eles brilhavam. Paz.
Fechei os olhos novamente, na esperança de fazer toda aquela dor e agonia passarem. Em vão. Senti em minha testa um grande formigamento. Era frio. Sim, Gentil estava me tocando. Sua pele em contato com a minha me causava uma sensação incrível, única. Era melhor agora, parecia que todos os meus nervos e ligamentos começavam de um único ponto, de onde Gentil me tocava. Como se esse ponto fosse uma grande fonte de energia elétrica, milhares de correntes passando por todo meu corpo se finalizando em um único ponto.
Meu coração. Cada segundo que passava ele ficava mais fraco, batia menos. Teimava em parar. Tinha vontade de arrancá-lo do peito.
- Miguel? – Fora a única coisa que consegui pronunciar, a primeira palavra de minha “nova vida”.
- Estou aqui contigo, rapariga. – Ouvir sua voz surtiu grande efeito em meu subconsciente.
- Estás sentindo alguma dor? - Sua voz parecia apreensiva. Senti que, se ele pudesse, acabaria com todas as minhas dores.
- Estou... Sentindo uma... Espécie de queimação...Ah... Isso é normal... Miguel? – Pronunciei com dificuldade, as palavras pareciam rasgar minha garganta.
- Sim, é o efeito do veneno. Tu já estás abandonando a vida humana, já estás com praticamente os dois pés na vida noturna.
- Que...Bom. – Eu arfava muito toda vez que tentava me comunicar.
- Agora tu precisas descansar querida, logo tu terás que ter energia para se alimentar, tens que poupar toda energia possível. Ficarei contigo até que acorde minha querida.
Eu sabia que agora tudo iria mudar, não poderia voltar para minha família e amigos, agora as coisas seriam diferentes, só teria a companhia de Miguel, isso me bastava. Sempre...
FIM






