Disclaimer: Alguns dos personagens apresentados nesta história pertecem ao autor André Vianco, a escrita não tem fundos financeiros.Esquecê-lo talvez não fosse a solução. As lembranças eram a única coisa que me deixava bem, pois eu sabia que, em algum lugar, ele existia. Sabia que ele era real.
Todas as noites eu voltava sempre ao mesmo lugar, a praia onde o vi pela última vez. Olhava aquele mar que o levou de mim, aquelas ondas malditas que o levaram para longe. Minha vontade era atravessar aquele mar imenso, ir atrás dele... Mas que chances uma pobre humana teria contra toda essa fúria?
A noite estava mais escura do que o normal: não tinha lua, nem estrelas. Sinal de chuva. Tempestade. Quem me dera fosse a tempestade sobrenatural. Não. Era apenas mais uma tempestade como qualquer outra.
Fechei os olhos e aspirei todo o ar que meu pulmão era capaz de suportar. Lá eu fiquei, imersa em pensamentos, em lembranças. Quando me esforçava eu conseguia ouví-lo, sua voz. Aquela melodia incrível. A voz que me fazia tremer. Apenas em minhas lembranças. Era triste lembrar de toda a minha felicidade ao seu lado e me ver agora, com toda essa angústia no peito.
Fitei o horizonte e avistei algo fora do comum: um borrão preto que se aproximava muito lentamente, era difícil dizer ao certo o que seria. Uma embarcação. Talvez. Mas quem ousaria velejar com o tempo tão feio, com uma ameaça de tempestade? Nenhum ser racional, creio eu.
Não conseguia tirar os olhos do borrão. Quanto mais se aproximava, mas nítido ficava. Não era possível. Só poderia ser mais uma de minhas alucinações. Eu certamente estava ficando boa nisso. Cada vez mais real, elas pareciam. Em poucos minutos a embarcação estava muito próxima da margem. Era tão velha, mas ao mesmo tempo, tão bela. Ela dançava ao sabor das ondas. Quanto mais o tempo passava, mais o mar se agitava. Em um simples piscar de olhos a caravela ficou imóvel. A velha embarcação produzia muitos ruídos, parecia estar reclamando de algo.
Eu permaneci imóvel. Uma sombra saltou da caravela. Não produziu barulho nenhum ao tocar o solo. Foi neste momento que meu coração disparou. Eu podia sentir. Seu cheiro chegou em minhas narinas junto com a brisa pesada. Era ele.
Lágrimas começaram a verter de meus olhos. Escorriam por minha face em grande quantidade. Era como se meus sonhos ganhassem vida.
Meus devaneios foram interrompidos quando senti minha face pinicar, minha pulsação se acelerar, meu sangue esquentar. Miguel me tocara. Sentir seu toque gelado, minha memória havia falhado muito comigo. Seu toque produzia várias sensações em meu corpo. Isto eu não sentira com as lembranças. Nunca.
Pousei minha mão por cima da dele, queria aproveitar cada segundo para tocá-lo, para conferir se era mesmo real. Sua mão era gelada, e isso a luva de ceda não escondia. Seus olhos, como brilhavam... Aí minha memória falhara também, não me lembrava do quão penetrante eles eram, de como o brilho deles me fazia vacilar.
- Querida... Que falta tu me fizeste.- Esses meses que Miguel passara em Portugal deixara seu sotaque mais proeminente.
Antes que eu pudesse pronunciar algo, Miguel me puxou para um abraço. Repousei minha cabeça em seu peito. O coração não batia, ele não respirava. Às vezes me esquecia do quão inumano ele era. Ele estava mais para um anjo de olhos azuis, do que para um vampiro maldito.
- Voltei para proteger-te, senti uma necessidade grande de ver-te, de saber se tu estavas bem. – Ele sussurrou. Se fosse em um outro momento, certamente não teria entendido o que ele havia dito, mas ali, eu e ele, tão próximos, eu prestava atenção em cada detalhe. Se ele partisse novamente, queria ter certeza de que me lembraria de tudo. De cada segundo ao seu lado.
- Eu não estava bem, eu não fico bem quando você não está comigo. – O choro já tomara conta de mim, soluçava muito entre as palavras, meu desespero era evidente. Eu queria de todas as maneiras me acalmar, mas era impossível, o medo de perdê-lo de novo era maior.
- Perdoe-me se te fiz sofrer, se te fiz derramar lágrimas por mim, uma maldita criatura, eu não mereço nenhuma lágrima derramada. – Ele realmente ficara abalado com minha angústia e tristeza.
- Não, Miguel, não é culpa sua. Você tinha um dever a cumprir, seus irmãos são mais importantes. – Eu tentava me acalmar de todas as formas, mas minhas tentativas eram vãs.
- Jamais. Acho que mais importante que meus irmãos é o coração em que habito. É o coração de ti, que o entregou para mim, e eu, como um monstro, o dilacerei. – Ele se culpava, e isso me deixava muito pior do que eu já estava.
- Gentil, pare com isso, você não é um monstro, você é um anjo. Meu anjo.- Toquei sua face na esperança de confortá-lo. Em vão.
- Como ousa comparar-me com uma criatura tão divina? Um anjo. Sou um demônio, um maldito parasita. – A raiva ficava cada vez mais explícita em sua voz, que mesmo alterada ainda era como música para mim.
- Se você continuar falando assim vai me deixar triste, Gentil. Pára, você é meu anjo.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, me envolvi novamente em seus braços, queria ficar junto dele por toda a eternidade. Repousei minha cabeça em seu peito novamente. Era frio. Mas estava perfeito. Eu adorava o frio, principalmente se fosse o de Gentil.
Quando olhei novamente para o mar a caravela já havia sumido no horizonte, não havia nenhum sinal de sua passagem por estes mares. Olhei para os olhos de Miguel e lá encontrei todas as respostas que procurava. Agora ele estaria comigo, ficaríamos juntos. Pertenceríamos um ao outro e nada iria mudar isso. Tudo o que dependesse de mim eu estaria disposta a fazer para ficar eternamente ao seu lado...
FIM.
Escrito por : Rafaela Zerbinatti
Beta Reader : Jane A. Doe






